Minerais no Solo Brasileiro: Influência do Solo na Dieta
Saúde & Qualidade de Vida - Saúde & Nutrição
Uma avaliação do consumo de minerais em dietas brasileiras, realizada mediante análise laboratorial dos minerais presentes em alimentos das diferentes regiões do país, preparados de acordo com as formas habituais, mostrou que a ingestão de minerais varia conforme a região [1].
A pesquisa coordenada por Silvia Maria Franciscato Cozzolino, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), verificou que a ingestão de magnésio fica abaixo em algumas regiões do país, mas, em outras, mantém um nível limítrofe. A ingestão de zinco é limítrofe para determinados grupos da população e bem baixa para outros, por exemplo, em idosos. A ingestão de cobre também é limítrofe, assim como a de magnésio, e a de selênio varia de acordo com a região geográfica [1,2].
O selênio é um elemento nutricional essencial, pois ele é parte integrante da enzima gluta¬tiona peroxidase, um antioxidante que impede a formação excessiva de radicais livres e protege o organismo de suas ações. A diminuição da atividade da glutationa peroxidase devido à diminuição de selênio é responsável pelo aumento dos radicais livres que causa envelhecimento precoce, maior incidência de câncer e patologias cardiovasculares [2,4].
Além disso, o selênio está estreitamente relacionado com a função da tireóide, pois participa da conversão da tiroxina (T4) para tri-iodo tironina (T3), a forma mais ativa do hormônio tireoidiano. O selênio também está envolvido na síntese da testosterona e, durante a gravidez, a deficiência de selênio é associada com maior incidência de defeitos do tubo neural do feto [1,2,4].
O solo brasileiro apresenta regiões muito pobres em selênio, o que torna muito frequente a deficiência deste mineral, principalmente nas regiões do sudeste e do centro-oeste, que são as de menor concentração de selênio no solo e onde se constata a maior deficiência alimentar desse nutriente. Já nas regiões do norte e nordeste, não é comum a deficiência desse micronutriente, já que o solo dessas regiões é muito rico em selênio [1].
Cozzolino fez um levantamento de selênio no território nacional, analisando o feijão, a carne bovina, a água e o solo. Os resultados mostraram que no Ceará, por exemplo, o feijão tem 1,2 µg de Se/g; em São Paulo, tem 0,016 µg de Se/g. Portanto, percebe-se que o teor de selênio é influenciado pelo meio ambiente em que a planta cresce [1,2].
Analisando os parâmetros bioquímicos relativos ao selênio obtidos para certos grupos da população brasileira nas regiões sudeste e centro-oeste, foram observados valores abaixo da média referida na literatura. Por sua vez, em estudo que realizamos em Macapá, onde a farinha de castanha-do-pará (oucastanha-do-brasil) é utilizada na merenda escolar, foi observado que todos os parâmetros bioquímicos analisados em crianças estavam muito acima dos valores de referência, indicando a necessidade de cuidado quanto aos possíveis efeitos adversos, como a toxicidade do selênio, que é alcançada em doses elevadas (acima de 400 µg ao dia), e está associada à fragilidade e perda de cabelo e unha, irritabilidade, fadiga, aborto e infertilidade [1,4].
A recomendação é de que um adulto consuma, no mínimo, de 55 a 70 microgramas por dia [4]. A castanha-do-pará contém, por grama, cerca de 25 a 49 µg/Se, assim, com uma unidade já é possível encontrar cerca de 200 a 400 microgramas de selênio. No caso de uma criança, meia castanha seria suficiente, afirma Silvia Cozzolino [1].
Em relação ao zinco, as melhores fontes desse mineral são os mariscos, ostras, carnes vermelhas, fígado, miúdos e ovos. As nozes e as leguminosas também são fontes relativamente boas de zinco. O consumo de zinco é influenciado pela fonte protéica da dieta, assim, dietas constituídas de ovos, leite, frango e peixe têm menor razão Zn/Proteína do que aquelas de mariscos, ostras e carnes vermelhas [2].
Um estudo realizado por Cozzolino avaliou a sua biodisponibilidade na dieta brasileira e constatou que, embora os resultados tenham sido bastante variáveis de um indivíduo a outro (pois o grupo era composto de dezoito adultos jovens do sexo masculino), os valores encontrados mostraram que a oferta do zinco não se mostra um problema de biodisponibilidade na dieta brasileira [1].
Contudo, apesar da biodisponibilidade do zinco não ser um problema na dieta brasileira, a deficiência desse mineral pode ocorrer, devido ao fato de que nem todos os brasileiros tem acesso às suas principais fontes, assim, como o selênio, que pode estar em falta na dieta em determinadas regiões do país, como vimos anteriormente. Assim, uma conduta possível para minimizar esse problema da deficiência desses importantes minerais na dieta seria a suplementação.
Normalmente, a suplementação se aplica quando determinado nutriente é deficiente para um grande número de pessoas. Ela é adotada quando grupos específicos mostram deficiência maior em determinado nutriente – por exemplo, suplementação para gestantes, crianças, idosos, ou mesmo em determinadas regiões, onde os índices de deficiência de um determinado nutriente são maiores [1].
Porém, quando se pensa em programas de intervenção em suplementação, é indispensável prestar atenção às interações entre nutrientes. O excesso de determinado nutriente pode interferir na absorção de outro. A ocorrência de interações entre alimentos nas dietas é menos provável do que naquelas situações em que se introduz um composto químico isolado, por exemplo, numa solução aquosa [1].
Assim, concluímos que o ideal é sempre consumirmos os nutrientes através de uma alimentação saudável, já que estaremos consumindo-os em sua forma natural. Porém, em casos em que isso não pode ser feito, como no caso das regiões sudeste e centro-oeste, em que não há biodisponibilidade de selênio no solo, a suplementação pode ser implantada em casos de deficiência.

Referência:
[1] COZZOLINO, S. M. F. Deficiências de minerais. Estudos Avançados, São Paulo, v. 60, p. 119-126, 2007.
[2] MAIHARA, V. A.; GONZAGA, I. B.; SILVA, V. L.; FÁVARO, D. I. T.; VASCONCELLOS, M. B. A.; COZZOLINO, S. M. F. Daily dietary selenium intake of selected Brazilian population groups. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, Akadémiai Kiadó, v. 259, n. 3, p. 465-468, 2004.
[3] FAVARO, D. I. T.; MAIHARA, V. A.; ARMELIN, M. J. A.; VASCONCELLOS, M. B. A.; COZZOLINO, S. M. F. Determination of As, Cd, Cr, Cu, Hg, Sb and Se concentrations by Radiochemical Neutron Activation Analysis in Different Brazilian Regional Diets. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, v.181, n. 2, p. 385-394, 1994.
[4] KRAUSE. Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 11ª Edição. São Paulo. Editora Roca. 2005.
[5] MAFRA, D., COZZOLINO, S. M. F. Importância do zinco na nutrição humana. Rev. Nutr. vol.17 no.1 Campinas Jan./Mar. 2004.
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